quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Te quero um pé de romã
quero pães, ovos, uma xícara de café
e uns beijos ingênuos na bochecha
(te quero é cócegas nos pés)

te quero lábios mordidos bem carinhosa
e costas, e ombros, pescoço
eu quero um abraço apertado
(quero mesmo é um mundo só nosso)

te quero força para lutar e proteger
para me carregar e brincar
depois me jogar no sofá
quero você onde queira estar

São seus meus melhores dias
são seus a maçã do meu rosto e meu riso
Quase nada te peço em troca
-- só quero é que esteja comigo

Fragmentos

Eu sinto o mundo dissipar
suas faces de pranto e dentes
em carne e sangue e ossos frágeis
tão ácidos, rasgam e mentem

Pressinto não estar contigo
como te jurava um dia antes
do globo todo se for enfim
mal apego e recolho o restante
e já me parte em mil pedaços

Penso nas pessoas que mudam
quando se afastam adentro a geada
são sombras inertes em alegoria
sorrindo de maneira desleixada

Podemos ressurgir pós cinzas?
Podemos mergulhar mais fundo?
Podemos viver sozinhos?

terça-feira, 27 de março de 2018


Queria sentir o que sentem: esse ardor febril com a vida. Mas não conseguia entender a graça que existe nessa senhora de pernas bambas traiçoeira que encanta a tantos.
Eles sorriem, cantam e dançam com ela, exalando em sua alegria uma magia indecifrável e ingênua. E ainda tentam prolongá-la após a morte!
O que há de errado comigo? Talvez Deus tenha se esquecido de acrescer algo à minha essência e eu tenha me tornado uma casca frígida com pernas e mãos.
A vida me parece uma coisa estúpida.


São vermes. Vermes nojentos.
E me devoram com seus olhos suplicantes e moribundos, ansiando em seu ínterim por uma reação de histeria que alarde a todos dos vermes que moram na minha massa cinzenta. Que tipo de verme sou eu? Que tipo de monstruosidade me quer para seus atos descarados e suas garras sujas, pútridas, fazendo arder seu hálito ácido nos meus ouvidos?
Eu rastejo e destruo, eu rastejo e destruo e devoro e quero foder os vermes que rastejam e destroem e imploram por algo que garanta a própria existência para que não culpem tanto, tanto, tanto, tanto o seu enxofre e suas unhas grandes, sujas, nojentas e sua mente devorada por larvas por afastarem todas as outras carcaças animalescas que rasgam o solo e inspiram e expiram.
São cascas decrépitas que apodrecem e morrem.

sábado, 17 de março de 2018

Sábado



O dia está viscoso. Talvez seja um efeito do sábado. É como se tudo — as preocupações e as pendências, por exemplo — ficasse suspenso em alguma rede invisível acima de mim, a ponto de se arrebentar, para que nos domingos suas bases realmente cedam aos poucos. E fica a sensação: a gravidade me puxando com tamanha força que o meu estômago parece ter pedras, e eu fico sonolenta, e adquiro consciência de como os meus pulmões estão úmidos e a minha boca está úmida e a minha pele é pegajosa e as minhas costas doem e o meu diafragma quase não se contrai ao inspirar, eu não consigo pensar em muito ao mesmo tempo e eu quero pensar em muito ao mesmo tempo e me abate essa sensação ensurdecedora de que o céu está se rachando acima da minha cabeça.
Todas essas sensações estão com suas pontas suspensas: tudo está à margem do desastre. Talvez seja por isso que o descanso no domingo seja necessário: imagina se todo esse estardalhaço caísse de uma vez?

terça-feira, 13 de março de 2018

Não, não tem título

Escrevo sobre você,
então já sem delongas declaro
para que não devaneie demais
que não sou do tipo dramático.

Escrevo sobre o que sinto,
mas não vim só para isto:
algo de rimas e choro, somente,
de certo não deveria ser lícito.

Gosto de me imaginar contigo
humilhando os fracos e as crianças,
e gatos e gambás e música indie,
sem aprovação ou licenças.

Gosto de me imaginar contigo
a meio metro de distância,
assistindo filmes ruins antigos,
enquanto não se desbota a lembrança.

Espero que calce a vontade,
enquanto existe e vivencia
a ideia de nós no mesmo espaço
à espera do mesmo dia.

E você mora tão longe
E eu vou tão longe, no sul
E não mais existiremos
Mas, por hoje, já está bom
pau no seu cu.

Eu me pergunto se você está bem, onde quer que esteja. E eu me odeio por se preocupar excessivamente, quer dizer, pode ser que esteja melhor do que eu. Ainda assim, ah, como eu queria saber onde você está! As pessoas são legais por aí, nesse clima ensolarado e nesse mundo ambicioso a que pertencem seus novos sonhos? Aqui as coisas não melhoraram muito, mas eu sei que não se importa. Eu já não existo, assim como você deixou de existir por aqui.
Há tantas coisas que eu quero compartilhar contigo, e tantas que eu pretendo desmentir. Não há ninguém como você, e eu sou egoísta o suficiente por acreditar que possa substituí-lo. Eu não posso, eu sei. E não consigo fazer nada para impedir que a minha mente tempestuosa apague pouco a pouco as suas frases de efeito e as lembranças as quais eu pretendia acalentar quando fosse velha e ignorante. E há tantas promessas que não posso mais cumprir, porque sei que envolveriam uma proximidade que não temos mais. Será que você também pensa demasiadamente nisso e se sente culpado?
 As músicas que tocam nos meus fones não têm sido mais as mesmas, ultimamente, e eu sei que as suas também, assim como seus hábitos, suas amizades, seus medos... Eu desenvolvi certo receio de conhecê-lo, por não mais reconhecê-lo, e meu peito vai ficar apertado e os meus olhos vão arder. Talvez o seu rosto não seja mais o mesmo, também, e se um dia ao acaso me esbarrar contigo na rua, peço que me perdoe caso eu não levante o olhar e saia cabisbaixa como faria com qualquer um. Mas você não é qualquer um. Ou, pelo menos, não costumava ser.
Ah, eu arranjei um gatinho! Você bem sabe que eu sempre quis ter um ao meu lado. Eu posso mostrá-lo a você, caso um dia venha me visitar.
...
Eu queria que soubesse como sinto a sua falta.