terça-feira, 27 de março de 2018


Queria sentir o que sentem: esse ardor febril com a vida. Mas não conseguia entender a graça que existe nessa senhora de pernas bambas traiçoeira que encanta a tantos.
Eles sorriem, cantam e dançam com ela, exalando em sua alegria uma magia indecifrável e ingênua. E ainda tentam prolongá-la após a morte!
O que há de errado comigo? Talvez Deus tenha se esquecido de acrescer algo à minha essência e eu tenha me tornado uma casca frígida com pernas e mãos.
A vida me parece uma coisa estúpida.


São vermes. Vermes nojentos.
E me devoram com seus olhos suplicantes e moribundos, ansiando em seu ínterim por uma reação de histeria que alarde a todos dos vermes que moram na minha massa cinzenta. Que tipo de verme sou eu? Que tipo de monstruosidade me quer para seus atos descarados e suas garras sujas, pútridas, fazendo arder seu hálito ácido nos meus ouvidos?
Eu rastejo e destruo, eu rastejo e destruo e devoro e quero foder os vermes que rastejam e destroem e imploram por algo que garanta a própria existência para que não culpem tanto, tanto, tanto, tanto o seu enxofre e suas unhas grandes, sujas, nojentas e sua mente devorada por larvas por afastarem todas as outras carcaças animalescas que rasgam o solo e inspiram e expiram.
São cascas decrépitas que apodrecem e morrem.

sábado, 17 de março de 2018

Sábado



O dia está viscoso. Talvez seja um efeito do sábado. É como se tudo — as preocupações e as pendências, por exemplo — ficasse suspenso em alguma rede invisível acima de mim, a ponto de se arrebentar, para que nos domingos suas bases realmente cedam aos poucos. E fica a sensação: a gravidade me puxando com tamanha força que o meu estômago parece ter pedras, e eu fico sonolenta, e adquiro consciência de como os meus pulmões estão úmidos e a minha boca está úmida e a minha pele é pegajosa e as minhas costas doem e o meu diafragma quase não se contrai ao inspirar, eu não consigo pensar em muito ao mesmo tempo e eu quero pensar em muito ao mesmo tempo e me abate essa sensação ensurdecedora de que o céu está se rachando acima da minha cabeça.
Todas essas sensações estão com suas pontas suspensas: tudo está à margem do desastre. Talvez seja por isso que o descanso no domingo seja necessário: imagina se todo esse estardalhaço caísse de uma vez?

terça-feira, 13 de março de 2018

Não, não tem título

Escrevo sobre você,
então já sem delongas declaro
para que não devaneie demais
que não sou do tipo dramático.

Escrevo sobre o que sinto,
mas não vim só para isto:
algo de rimas e choro, somente,
de certo não deveria ser lícito.

Gosto de me imaginar contigo
humilhando os fracos e as crianças,
e gatos e gambás e música indie,
sem aprovação ou licenças.

Gosto de me imaginar contigo
a meio metro de distância,
assistindo filmes ruins antigos,
enquanto não se desbota a lembrança.

Espero que calce a vontade,
enquanto existe e vivencia
a ideia de nós no mesmo espaço
à espera do mesmo dia.

E você mora tão longe
E eu vou tão longe, no sul
E não mais existiremos
Mas, por hoje, já está bom
pau no seu cu.

Eu me pergunto se você está bem, onde quer que esteja. E eu me odeio por se preocupar excessivamente, quer dizer, pode ser que esteja melhor do que eu. Ainda assim, ah, como eu queria saber onde você está! As pessoas são legais por aí, nesse clima ensolarado e nesse mundo ambicioso a que pertencem seus novos sonhos? Aqui as coisas não melhoraram muito, mas eu sei que não se importa. Eu já não existo, assim como você deixou de existir por aqui.
Há tantas coisas que eu quero compartilhar contigo, e tantas que eu pretendo desmentir. Não há ninguém como você, e eu sou egoísta o suficiente por acreditar que possa substituí-lo. Eu não posso, eu sei. E não consigo fazer nada para impedir que a minha mente tempestuosa apague pouco a pouco as suas frases de efeito e as lembranças as quais eu pretendia acalentar quando fosse velha e ignorante. E há tantas promessas que não posso mais cumprir, porque sei que envolveriam uma proximidade que não temos mais. Será que você também pensa demasiadamente nisso e se sente culpado?
 As músicas que tocam nos meus fones não têm sido mais as mesmas, ultimamente, e eu sei que as suas também, assim como seus hábitos, suas amizades, seus medos... Eu desenvolvi certo receio de conhecê-lo, por não mais reconhecê-lo, e meu peito vai ficar apertado e os meus olhos vão arder. Talvez o seu rosto não seja mais o mesmo, também, e se um dia ao acaso me esbarrar contigo na rua, peço que me perdoe caso eu não levante o olhar e saia cabisbaixa como faria com qualquer um. Mas você não é qualquer um. Ou, pelo menos, não costumava ser.
Ah, eu arranjei um gatinho! Você bem sabe que eu sempre quis ter um ao meu lado. Eu posso mostrá-lo a você, caso um dia venha me visitar.
...
Eu queria que soubesse como sinto a sua falta.

domingo, 4 de março de 2018


Eu sei que uma hora você vai embora. Por mais que, nesse momento, isso pareça algo além da nossa realidade, e é este momento tudo o que importa, eu sei que uma hora não valerá de nada. Todas as risadas de todas as piadas que eu já ouvi mil vezes no passado vão perder a sua graça e todos os receios sobre o futuro sob o som de músicas demasiadamente pretensiosas vão desaparecer. Não passaremos de mais uma história desbotada em um mundo lotado de pessoas e vazio de sentimentos duradouros, com uma originalidade desconhecida que nem a nós terá  algum valor. Eu não quero que termine assim, mas talvez esse mesmo futuro não vá ser tão significativo quanto é agora, porque o sofrimento vem a mim antecipado.
Eu sei que uma hora sua voz vai parecer estranha aos meus ouvidos e a fluidez do seu choro já não será mais natural e eu não vou saber como te ajudar. E eu sei que, quando isso acontecer, ambos reconheceremos que não passamos de dois estranhos, conversando sobre o clima lá fora e não atribuindo a este qualquer melodia de fundo ou qualquer divagação sentimentalista. E o pior de tudo é que vai ser tão natural, embora as entrelinhas pressintam o final, que não haverá nem como sermos afetados pelo esquecimento. E não é assim com a vida, no geral? Nós vivemos, morremos, e somos esquecidos para sempre, nesse mesmo mundo.
Só que, quando digo isso, digo não só relativo a você, porque não é a primeira nem a última vez que eu vivencio a tristeza de uma amizade tão forte, mas tão frágil.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Sutis são os meus medos de viver
nesse mundo entristecido, sem cor
como quem espera o amanhecer
desperto desde que o sol se pôs
não dorme agora, diz, ô, meu Deus
diz pra ela que eu volto destemido
não ressinto toda a dor que me causou
pois quem sente a vingança aprazível
não sentiu na pele o seu calor
não dorme agora, não deixa esquecer
que o frio de uma vida leva o amor